Toda opinião sobre trabalho criativo carrega um pressuposto silencioso: o de que dá pra avaliar de fora, sem nunca ter mergulhado dentro. Sabemos que pombos voam e peixes nadam, certo? Ninguém questiona essa divisão.
Mas já pensou como seria engraçado o pombo chegando pro lambari e falando: “Olha, deixa eu te dar uma dica: acho que você deveria movimentar mais sua nadadeira para a esquerda”?
É absurdo, não? O pombo nunca nadou um metro na vida. Mas ele viu o lambari em ação, por alguns segundos, do alto, e achou que aquilo bastava para dar palpite.
Por que toda opinião sobre trabalho criativo parece válida mesmo sem experiência?
Essa cena não fica só na fábula. Ela se repete o tempo todo em qualquer profissão criativa, só que sem penas e sem escamas.
É o cliente que nunca escreveu uma copy na vida dizendo que o texto “não tem gancho”. O executivo que confunde opinião com feedback porque uma vez leu um livro sobre storytelling. É o parente que trabalha com números explicando pra você, designer, por que aquele azul “não combina”.
Ninguém aqui é burro. É só que ninguém aqui sabe que voar e nadar são territórios diferentes — e essa é justamente a parte mais traiçoeira do problema.
De onde vem a confiança do pombo?
O pombo não chega desarmado. Ele chega com currículo. Foi bem em outro rio, resolveu outro problema, fechou outra conta — e por isso acha que entende de água. A confiança que ele carrega é real. Só que está aplicada no endereço errado.
É esse detalhe que torna qualquer opinião sobre trabalho criativo vinda de fora mais complicada do que um simples caso de arrogância. O pombo não está fingindo saber. Ele genuinamente acredita que sabe.
O nome técnico para esse erro
Existe até um nome pra isso: epistemic trespassing, um termo do filósofo Nathan Ballantyne para descrever quando alguém competente em uma área atravessa a fronteira e opina em outra como se a régua fosse a mesma.
Não é arrogância pura. É um erro de mapa. A pessoa não vê a linha que separa os dois territórios, então não percebe que cruzou nenhuma fronteira. O pombo não acha que está sendo injusto com o lambari. Ele genuinamente acredita que voar e nadar são a mesma coisa, só que embaixo d’água.
Quando o ambiente de trabalho recompensa o erro
E o pior é que o ambiente corporativo costuma recompensar esse erro de mapa. Reunião não pergunta se você nadou fundo o suficiente pra opinar sobre a correnteza. Pergunta se você tem cargo pra estar na sala.
O pombo nunca precisou provar que sabe nadar. Só precisou estar em cima, olhando — e é assim que boa parte da opinião sobre trabalho criativo circula dentro das empresas.
Por que esse tipo de palpite dói mais do que deveria
Vale separar uma coisa aqui: não é a crítica em si que incomoda. Trabalho criativo aguenta crítica — precisa dela, aliás.
O que dói é a certeza de quem nunca mergulhou, mas fala como quem já viu o fundo do rio. Existe uma diferença entre “não gostei” e “está errado”, e o pombo raramente conhece essa diferença. Pra ele, gostar e estar certo é a mesma nadadeira.
A pergunta que fica
Talvez o problema nunca tenha sido o palpite em si. Talvez seja a nossa dificuldade histórica, como categoria profissional, de explicar que existe uma diferença entre ver alguém nadar e saber nadar.
Quantas vezes você já tentou explicar isso e desistiu no meio da frase?
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